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domingo, 23 de outubro de 2011

O Pan e a transmissão pela TV

Eu gosto muito de assistir esportes na TV. Isto vale para meus esportes favoritos, como futebol, tênis, fórmula 1, vôlei, e para outros esportes em época de grandes campeonatos mundiais ou na época das Olimpíadas.

Os jogos PanAmericanos acabam sendo, em várias modalidades, uma disputa de um campeonato menor. Em vários esportes os países optam por enviar atletas secundários para disputar o Pan, e você vê o Brasil fazendo bonito e em alguns casos até ganhando com facilidade dos Estados Unidos. Em outras modalidades, o Brasil mesmo opta por poupar atletas e mandar uma equipe secundária: este ano, por exemplo, isto ocorreu no Futebol, tanto masculino quanto feminino, e no vôlei masculino.

Mas nem por esta razão este campeonato deixa de ter seu interesse: nesta última semana o torneio de vôlei feminino foi bastante disputado, com a equipe principal do Brasil e de Cuba fazendo uma final emocionante. Isto também ocorreu em algumas competições de natação, com algumas provas muito equilibradas, resolvidas no instante da batida.

O que realmente foi muito ruim neste Pan é a transmissão dos eventos. Há 2 canais transmitindo: a Record e a Record News, mas as principais competições envolvendo equipes brasileiras somente são mostradas pela Record, e a outra emissora geralmente passa competições que não envolvem o Brasil e replays de jogos onde o Brasil está envolvido. Há algum tempo vi uma notícia de que o Sportv passaria o Pan, mas isto não se confirmou.

A transmissão da Record mostra alguns problemas principais:

  • A escolha de imagens: provavelmente a escolha de imagens está sendo feita por alguém que não entende de esportes, ou que quer inovar nas transmissões. A Record levou várias câmeras extras para o México, e a toda hora estas imagens são mostradas, às vezes no meio da transmissão, sem nenhum critério. No vôlei, a Vila Panamericana era mostrada, interrompendo a transmissão da partida, no momento em que um ponto era jogado, ao invés de mostrar no momento em que um tempo foi pedido por algum dos treinadores. No caso da natação, antes do início de uma prova, eles não mostravam os competidores, os tempos, quem ocupava qual raia da piscina, mas somente ficavam mostrando uma câmera exclusiva que só filmava o brasileiro que estava participando da prova.
  • A escolha do que transmitir: às vezes há eventos ocorrendo em paralelo, e cabe à emissora escolher qual será transmitido, ou interromper pontualmente a transmissão de uma partida mais longa para mostrar uma prova rápida de natação ou uma luta de boxe, por exemplo. Há muita infelicidade na escolha, não há sincronismo entre os apresentadores.
  • A programação normal: a Record passa alguns eventos, mas em alguns dias, como no caso deste domingo, não interrompe a péssima programação habitual para mostrar os eventos do Pan.

Além disso, a Record contratou o Álvaro José, que tem uma das maiores memórias que conheço. Num tempo anterior à Internet (você que é mais novo acredite, um dia isto existiu), ele sabia o tempo de todos os competidores, os recordistas de todas as provas de atletismo e natação, os medalhistas, os recordes, etc, mas não era obrigado a tentar dar emoção a cada transmissão como faz hoje. Numa prova de natação, com uma brasileira ocupando a quinta colocação, na última virada, sem nenhuma chance de pegar sequer a quarta colocada, ele insistia na excepcional virada, na aceleração da brasileira, que ela ia buscar o ouro, etc, como se ninguém estivesse vendo a prova.

Mas sendo o Pan um evento menor, isto não é um grande problema, certo? Errado: até onde anuncia, a Record comprou também as Olimpíadas de Londres, o próximo Pan e as Olimpíadas do Brasil. Se você também gosta de esportes como eu gosto, se imagine assistindo a próxima Olimpíada sendo interrompido a todo instante para passar a novela da vez, mostrar algum brasileiro torcendo na Vila Olímpica, o programa do Gugu ou qualquer outra coisa. Como dizia um antigo personagem do Jô Soares: "me tira o tubo".

Abraços,

Henri

Os Altruístas e a censura

Na semana passada assisti a uma peça de teatro chamada Os Altruístas, com a atuação da Mariana Ximenes, e um elenco de mais 4 (ou 5) atores, recomendada para maiores de 18 anos. É difícil dizer se é uma peça que valha muito a pena assistir ou não: por se tratar de uma comédia, vai muito do estado de espírito de quem está assistindo achar graça das piadas ou achar estas piadas bobas ou ofensivas.

Algumas características interessantes da peça, sem procurar tirar a surpresa de quem decidir gastar seus reais para assistí-la:

  • A peça abusa de piadas politicamente incorretas, e não poupa nenhum dos estereótipos. Se você não acha graça deste tipo de piada, nem pense em assistir, a decepção vai ser grande.
  • Muitas das cenas tem temática sexual, sem distinção de gênero, com uso frequente de palavrões. O ator mais engraçado da peça faz o papel de um homosexual bem afetado.
  • Há uma proposital confusão entre as cenas. Demora alguns minutos para que você se oriente sobre o que representa o cenário, e se acostume com a rápida transição entre as cenas.

Neste dia nos sentamos ao lado de um casal que, com certeza, não achou graça de nenhuma das piadas. Enquanto eu dava algumas gargalhadas, eles ficavam quietos e sérios. Acho que saíram bem decepcionados do teatro, mas o pequeno guia acima é suficiente pra evitar que alguém também saia chateado.

O uso das piadas mais ofensivas da peça me lembrou um pouco o caso do Rafinha Bastos, do CQC - TV Bandeirantes, tão execrado ultimamente por conta de suas piadas mais ácidas. Antes xingado por muitos pelas piadas feitas no programa de TV, em rede nacional, principalmente naquela infeliz feita sobre uma cantora, agora qualquer coisa que ele fala vai para as principais páginas dos portais internet, e com certeza para vários programas de TV, dizendo que ele falou mal de alguém ou de alguma empresa no teatro, em uma entrevista, no twitter, e por aí vai.

O fato de falar bem ou mal, na vida de alguém conhecido, pode ser até bom para mantê-lo em evidência. Porém, a direção do canal de TV talvez tenha feito algo precipitado, e que não é bom para uma rede que busca atrelar sua imagem à democracia: ao retaliar o humorista, proibindo-o de participar dos programas onde atua, fez uma censura pesada para que pudesse ficar bem com seus anunciantes, e deve acabar perdendo o artista para outra rede de TV. A audiência, que gosta deste tipo de provocação e piadas, vai atrás, e atrás dela os anunciantes. Ou seja: talvez o posicionamento da rede de TV não tenha sido o mais inteligente no médio prazo, embora fosse o mais fácil no curto prazo.

Pra quem já assistiu qualquer stand-up comedy, se você se importar com piadas sobre gordos, mesmo sendo gordo, como é meu caso, sobre loiras, portugueses, homosexuais, etc, é mais saudável usar o seu direito à liberdade e não usar seu tempo assistindo a isto. Entendo que o mesmo valha para a TV: use a liberdade para mudar de canal, ler um livro ou fazer uma atividade muito mais prazerosa. Mesmo que esta atividade também possa ser censurada.

Abraços,

Henri Coelho